Tendo nascido em Dezembro de 1974, sou, indubitavelmente, um filho de Abril :) É pois com alegria que saúdo a excelente iniciativa que constituiu a criação deste blog. Os "posts", aqui colocados, têm sido de elevado interesse, como seria de esperar atendendo à qualidade dos "postantes" e apesar da reduzida disponibilidade que um "professor do Estado" tem, nos dias que correm... procurarei de forma breve (e espero não redutora ou muito menos maniqueísta) contribuir modestamente para este "filhos de Abril".
Nas últimas duas décadas todos temos sido bombardeados efusivamente pela generalidade dos "fazedores de opinião" no sentido do livre mercado. O Estado é opressor e não deixa respirar o mercado, o Estado deve intervir menos, basta deste Estado despesista que tudo controla e que cerceia a livre iniciativa, blá blá blá… ad nauseam.
Alguns dos filhos de Abril aqui "postantes" nasceram, cresceram, formaram-se… a ouvir isto, ao ponto de tal ser algo de natural e se constituir como uma verdade insofismável. Alicerçando-se no credo capitalista, não se discute, não se reflecte, apenas se trauteia enquanto, genuflectidos, adoramos o vil metal... Sacrossanta panaceia que tudo cura, tudo resolve, tudo corrompe.
Qual apócrifo apóstata transgredirei aqui um pouco sem contudo ofender a massa ruminante que faz disto sua autista profissão de fé.
Com apenas dois exemplos, a dois planos, transporemos esta visão bidimensional dominante para uma tridimensional aproximação à realidade sempre complexa e multifacetada onde a Verdade se consubstancia na pluralidade de opiniões e "verdades".
No plano internacional, assistimos durante anos às críticas provindas dos mais diversos sectores acerca da política agrícola comum, vulgo PAC. Apodada de proteccionista, era urgente modificá-la, liberalizá-la. Também a nível mundial era imperioso que o livre mercado e apenas este tomasse conta dos produtos alimentares. Assim se fez…
Hoje ligamos os noticiários e vemos revoltas de consumidores, países do "segundo mundo", que há décadas que não tinham incidentes de fome ou escassez de alimentos, têm actualmente mercados de comida reciclada… sim… restos de comida encontrada no lixo, "tratada" e vendida a quem não tem dinheiro para adquirir os alimentos face à actual escalada dos preços no mercado mundial de produtos alimentares! Nos países do terceiro mundo, atolados em fome e miséria, a situação conseguiu agravar-se. Neste primeiro mundo lusitano, as "abastadas" famílias do salário mínimo "esticam os cordões à bolsa" face ao aumento do pão e restantes produtos de primeira necessidade. Com a subida do petróleo, o "biodiesel" é cada vez mais rentável e no livre mercado (cego para tudo menos o dinheiro) os cereais são escoados para fabricar combustível e não pão…
Os mesmos que gritavam para o fim das políticas agrícolas proteccionistas apelam agora à intervenção dos Estados e das instituições Internacionais… agora o intervencionismo é bem vindo… e não lhes podemos dizer para irem pedir ao livre mercado que alimente os esfaimados…venha o Estado, ora tirano interventor ora seráfico salvador.
Por cá, à beira mar plantados, crescemos a acreditar nas virtualidades da iniciativa privada portuguesa cujo ex-líbris era (é?) o maior banco privado Português. O BCP, símbolo da eficiência, do rigor, da modernidade, face ao atrasado, ineficiente, burocrático e vagamente corrupto Estado…
Abrimos os jornais e lá constatamos o escândalo financeiro do BCP, a corrupção, o compadrio, a má gestão… pois é, o Estado não empresta milhões de euros aos filhos, penso que só tenta mesmo colocá-los nas faculdades de medicina, mas, quando descobertos, origina demissão de ministros, aqui origina o quê? Chamar mais uma vez o Estado para salvar e por na ordem o maior banco privado nacional, à custa da transferência da cúpula dirigente da banca nacional para o BCP…
Os politicamente correctos, dirão que o Estado pode e deve ser regulador, permitir a livre iniciativa e regular o livre mercado. Dirão que a forma como o Banco de Portugal "regulou" o caso anteriormente referido não foi o melhor mas que foram seguramente extraídas ilações no sentido de melhorar e que a nível geral o Estado desenvolve de forma tendencialmente positiva a sua função reguladora permitindo cada vez mais o crescimento e potenciação da actividade privada nacional bem como a criação de condições favoráveis à fixação de empresas estrangeiras aumentando a criação de condições de empregabilidade sustentável… Ena… eu até podia dar um político correcto…;) mas não tenho tempo.
Não vou aqui extrair nenhuma conclusão acerca destes dois exemplos deixando tal à vossa criatividade. Aproveito apenas para saudar os dois novos ministros, que na Cultura e na Saúde vieram provar a abertura deste governo, superiormente liderado por um primeiro-ministro que só por ignorância ou desonestidade intelectual alguém pode não admirar, às preocupações sociais da Nação.
Autor: José Manuel Silva Vaz
